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12 de abril de 2015

Rua da Estrada de tudo que aparece

Rua da Estrada
12 Abril 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

“TEM-se empregado a photographia para representar tudo o que existe sob o sol que nos ilumina (…): ela é maravilhosa na traducção dos aspectos da terra, do mar e do ceu; ella propaga as obras do genio, ou sejam em marmore ou em pintura ou sejam esses maravilhosos monumentos edificados pelos ousados architectos de remotas eras. Ella é o auxilio do commerciante que anuncia os seus produtos; vem em socorro do astronomo para a representação dos astros; fórça a electricidade a escrever, e isto tudo de tal modo que até agora nada se lhe pôde comparar.”[1]

É tal qual. Juntando a fotografia e a Rua da Estrada, aparece mesmo tudo o que existe sob o sol que nos ilumina. Basta imaginar e aparece. Nesta colisão dos mundos que aqui apareceu, a horta murada com a vinha de arredor faz-se acompanhar de um verdadeiro clássico com três potentes colunas em granito e remate em frontão triangular que formam uma espécie de pronaos ou vestíbulo com respectiva escadaria. É um edifício-montra, auxílio do comerciante que anuncia os seus produtos, nada se lhe pode comparar.

Se fosse a Casa Branca, estes adereços neo-clássicos estariam adequados a certas convenções sobre certos edifícios e respectivas funções. A não ser assim, a vigilância erudita dirá como quem sorri para os simples e falhos de razão: pós-modernices. Deixá-los, pensam que são ousados arquitectos de remotas eras. Em mármore, em pintura ou em maravilhosos monumentos, a regra de ouro na Rua da Estrada é não passar despercebido, nem que seja preciso forçar a electricidade a escrever. É isso.

____________________________________________
[1] Henry Peach ROBINSON 1869, citado em Antonio BARROCAS (2006), A arte da luz dita. Revistas e boletins. Teoria e prática da fotografia em Portugal (1880-1900), vol.I, Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa, Lisboa, p. 104.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-de-tudo-que-aparece

17 de março de 2015

Rua da Estrada Selvagem

Rua da Estrada
17 Março 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

(…)

Get your motor runnin’
Head out on the highway
Looking for adventure
In whatever comes our way

Yeah, darlin’
Gonna make it happen
Take the world in a love embrace
Fire all of your guns at once
And explode into space

Like a true natures child
We were born
Born to be wild
We can climb so high
I never wanna die

Born to be wild
Born to be wild

Estes são os versos finais de Born to be wild dos Steppenwolf (1968). Easy Rider será o filme de culto, e a moto Harley-Davidson conduzida por Peter Fonda e Dennis Hopper, um verdadeiro mito da cultura americana. On the Road, o livro de Kerouac (1957), tinha dado o mote para a ambiência do road movie como um mundo à parte onde o asfalto, a velocidade, a evasão, a viagem…, são o ponto de fuga para uma contra-cultura estrada fora. O heavy metal, o da mota e o do rock’n’roll, juntam a energia, a vertigem, o ruído, a excitação e as drogas nas cavalgadas do asfalto em demanda de um sentido para odisseias libertárias, rebeldes e vagabundas. Born to be wild transformou-se no hino dos motards de todo o mundo.[1]

A N206 não é a Route 66, a lendária mother road que atravessa os EUA de lés-a-lés. Não interessa, we can climb so high facing the sun…, eucaliptos de um lado, campos de azevém do outro, vacarias, fábricas, casas e tudo e tudo, born to be wild, como diz na tabuleta pendurada e que daqui muito bem se enxergaria não fora este admirável clarão do sol em modo poente e contraluz.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-selvagem

12 de março de 2015

Rua da Estrada de Luanda

Rua da Estrada
12 Março 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

NÃO é só Luanda que está caótica. Caótico está o próprio conceito de cidade na versão habitual de andar por casa pensando que as cidades são os centros históricos da velha Europa, uns prédios apinhados, e umas auto-estradas, centros comerciais…, além extensos subúrbios, e pronto.

Na África havia aquela ideia de que a cidade era a cidade colonial com suas avenidas e jardins limpinhos, casas lindas e prédios tropicalmente modernos. O resto era o caniço, o musseque, os indígenas e os seus outros mundos. A ordem e a desordem urbana faziam-se com este dualismo entre supostos civilizados e indígenas, colonos, colonialistas e colonizados. De repente, passada a descolonização, o clarão da independência e os anos duros da guerra civil, Luanda apresenta-se como um enorme território rapidamente urbanizado, feito de retalhos ligados de modo frágil e congestionado onde desaguaram milhões de fugitivos de uma terra a ferro e fogo.

A Luanda pós-colonial é também a Luanda do capitalismo global, fragmentada em musseques, condomínios de luxo, cidades novas, prédios velhos, torres de escritórios, poder, ostentação, lixo e muita miséria. Ao sentido do todo sobrepõem-se as novas tribos[1], constelações de grupos e interesses que prevalecem sobre as grandes instituições e sistemas da modernização social e da organização do Estado; aí convivem o autoritarismo, a anomia e a pulverização social, muita esperança e vontade de futuro, também.

Um imbondeiro com um reclame em chinês na Rua da Estrada é apenas um afloramento das múltiplas africanidades que há em África; sinal de pequenos negócios que são grãos de poeira ao lado de outros que há daqui e d’além Kwanza.

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http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-de-luanda

8 de março de 2015

Rua da Estrada do Paraíso

Rua da Estrada
8 Março 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

PARA os que pensam que a Rua da Estrada é um inferno, lhes diria que é o seu contrário e que não é difícil provar tal facto de tão visível e argumentada que está a existência do paraíso, decorado interior e exteriormente e equipado com mobiliário de jardim como lhe compete. As portas do paraíso teriam que dar para a Rua da Estrada que é coisa que vai a todo o lado e não tem portagens como as vias mais rápidas.

Depois de terem provado do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, Adão e Eva foram expulsos, como se sabe. Ei-los, no entanto, sentados à porta, já completamente calçados, vestidos e penteados de caracolitos, razoavelmente refeitos dos seus desentendimentos com o Todopoderoso. Em todo o caso, o querubim disfarçado de anjinho papudo, deve ter a espada de fogo guardada debaixo da túnica, não se lembrem eles de voltar a entrar. Da fartura do éden e da paz que reinava entre as bichezas que o habitavam, vislumbra-se daqui a fertilidade de uma galinha no choco e uma águia em sã e branca convivência. Confere.

Como é Paraíso, a Rua da Estrada organizou-se como nunca: ele é passeios, rampas, baias de estacionamento, passadeiras, iluminação, bandeiras, petúnias em vasos e tiras relvadas, separação de faixas de entrada e saída de veículos, caixotes verdes para o lixo e o que mais se poderia ver ao longe se não fosse a curva.

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http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-do-paraiso

4 de março de 2015

Rua da Estrada do Brasil

Do outro mundo, Rua da Estrada
4 Março 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

A RUA da Estrada do Brasil é hiper-realista. Aquilo que noutro lugar seria apenas uma mínima manifestação de qualquer coisa apenas esboçada, toma aqui um visual transbordante como nos ambientes da realidade aumentada: estacionar na berma pode ser de muitas maneiras; as cores e as letras multiplicam-se numa cacofonia de signos, códigos e suportes fixos e ambulantes; o asfalto vai incerto por limites de vias, valetas e passeios. Nos fios que se penduram nos mesmos postes, Ariadne não saberia encontrar solução para Teseu que até podia não ser comido pelo Minotauro mas morreria electrocutado ou permaneceria eternamente no labirinto sem nunca perceber se o fio era de telefone, de electricidade, fibra óptica ou pesca à linha.

Na vez da limpeza técnica e asséptica do tudo igual, alinhado, certinho, regulado…, vai a aventura da vida de todos os dias, a (re)construção constante de regras de partilha das coisas e dos espaços, tu não me pisas, eu não te dou caneladas, tu não me roubas a bicicleta. Não será o paraíso e, se por distracção ou exotismo parecer que é, logo virão as serpentes assanhadas.

Projectado por Niemeyer, o Palácio da Alvorada ganhou esse nome porque o Juscelino Kubitschek terá dito “que é Brasília, senão a alvorada de um novo dia para o Brasil?”. Eram tempos modernos de utopias de construção do futuro mais que perfeito. Agora, Alvorada é nome de loja de rações para cães e gatos.

Me parece que nem uma coisa nem outra são boas para o brasileiro. Que venha então a primeira luz do dia, que eu estava à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar cantando coisas de amor, como canta o Chico.  






Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/dooutromundo/rua-da-estrada-do-brasil

28 de fevereiro de 2015

A Rua da Estrada de Álvaro Domingues

publicado por Paulo Moreira Lopes
SEXTA-FEIRA, 12 DE DEZEMBRO DE 2014

Para Álvaro Domingues, a estrada e tudo que a ela se pode referenciar, não se podem decifrar como quem lê um texto linear e estruturado. A estrada é um hipertexto em construção contínua (cfr: página 145).

Por isso, o autor dispõe-se a ajudar-nos a ler aquele hipertexto.

A imaginação do autor é diretamente proporcional à fantasia que margina (em alguns casos ocupa) a rua da estrada. Os factos retratados (retrato + tratado) são tão caricatos, absurdos, que a linguagem, para concorrer com os mesmos, é o mais metafórica possível.

Em resumo: é um livro de e sobre metalinguagem estradal.

Imperdível: a casa atropelada[1] (página 46) e a casa com piercing (cfr: página 55).

Novidade: eu pensava que a “Casa da Trofa” correspondia à “Casa dos Venezuelanos”. Ou será que a “Casa da Trofa” é a “Casa dos Venezuelanos” copiada e divulgada pelo Gabinete Técnico da Trofa (cfr: página 40)?

Omissão: não se abordou o Portugal convexo.

Proposta: falta acrescentar a noção de estrada ratada. É a estrada que, sendo demorada e sub-repticiamente ocupada nas suas margens (às vezes atinge a plataforma) por equipamentos (móveis e imóveis), acaba por se desvalorizar (como a moeda na idade média), de tal modo que é decidido construir uma Variante. Então passamos a ter: a rua da estrada ratada (as mais das vezes de sentido único) e a Avenida da Variante (cfr: página 157).

Vila Nova de Gaia, 12 de dezembro de 2014.

[1] Será que foi atropelada por um camião cheio de coincidências, má vontade, lapsos e aselhice?

Ver mais:
http://umreinomaravilhoso.blogs.sapo.pt/a-rua-da-estrada-de-alvaro-domingues-162350#_ftn1

27 de fevereiro de 2015

Casa de sonho

Rua da Estrada
27 Fev 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada


DIZIA um velho ditado que “quem fez a casa na praça / a muito se arriscou / para uns, pequena de mais / para outros, de alta passou”. Fazer a casa na praça significa expor ao julgamento público aquilo que podia não passar de um recato privado quase invisível atrás dos muros e portões. Pois…, o problema é que a própria privacidade só existe por contraste com essa sua suposta incompatibilidade pública.

Lugar público como é, a Rua da Estrada é uma espécie de praça, uma passarela de pequenas vaidades que só não usa quem não pode ou pensa que tem o seu lugar tão perfeitamente definido pela sua linhagem e bom nome, que a estratégia de se mostrar é, exactamente, esconder-se no discreto charme da burguesia de berço. “Casas de Sonhos”[1]é um belo livro sobre estes dispositivos simbólicos que dão sinais de nós e do modo como nos auto-representamos quando queremos dar pública presença da nossa trajectória social ascendente. Os recursos de cena dessa dramaturgia são infinitos – cores, formas, tamanhos, jarrões orientais, pratos, frisos…; as casas servem lindamente para isso.

Há muito que se sabe que isto de viver em sociedade é um misto de diluição e distinção: queremos ser e estar entre outros mas diferentes de outros. Se assim não fosse, ou estávamos diluídos na massa, arregimentados, ou seríamos um somatório insuportável de egos. Haja então alegria!

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/casa-de-sonho

23 de fevereiro de 2015

Edifício-montra

Rua da Estrada
23 Fevereiro 2015


Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada


A LUZ e a transparência são extraordinárias artilharias de produção de visibilidade. Por mil e uma noites, a mega-cristaleira é uma aparição, a caverna do Ali-Babá repleta de tesouros. A cena do aquário rutilante oscila entre o pornográfico, o exacerbado mais real que o real a saltar para o asfalto, e a sensualidade do apenas sugerido com a promessa de que tudo o que se desejar está contido na abundância destas caixas mágicas.

No seu ensaio sobre a sedução, Baudrillard lembra que no moralismo religioso os sedutores e os artifícios são coisas do mal, do feminino, do sexo e da perversão. Assunto diabólico ao serviço da máquina do desejo e do artifício, a sedução é um descentramento, uma irrealidade alucinada. E no entanto, porque houvera de ser isso se até um pavão destituído de pensamento mágico carrega tal parafernália de plumas e cores só para exibir aquele ritual de brilho e coreografia sobrenatural para fêmeas abstroncias? (De la Séduction, Paris, Galilée, 1979).

Na rua, à escala do peão, basta uma montra para seduzir quem passa. Na Rua da Estrada vai tudo tão depressa e é tanta a concorrência que a montra se tem que agigantar à medida do edifício. O edifício-montra cumpre ao mesmo tempo a sua função de estabelecimento comercial, de mostruário, de armazém, de escritório, etc. Depois, o agigantamento do edifício – grande, sempre que os objectos expostos são também grandes -, permite também a infinita proliferação dos objectos pequenos, da gama de produtos, da mistura entre a especialização e a combinação de coisas, ou da organização de “pacotes” como a linha de mobiliário, decoração, iluminação. São as economias de gama do showroom, como explica a pseudo-ciência da economia com palavras estrangeiras.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/edificio-montra

17 de fevereiro de 2015

Café Canastro

Rua da Estrada
17 Fevereiro 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

OS CANASTROS são estas casas esguias e arejadas onde se guardavam as espigas e se defendiam da humidade e dos ratos. Quando veio das américas, o milho provocou uma verdadeira revolução nos campos: planta exigente em calor, regas, adubos, sachas e mil cuidados para que crescesse saudável e não fosse comida pelos morcões. Por isso o gado foi estabulado; por isso se cortavam matos nos montes para que o esterco dos animais depressa se transformasse em carradas de estrume; por isso se exploravam águas para apaziguar a sede da terra. O milho era o milagre do pão, a comida para os humanos e para os animais, o grão que se podia guardar, as medas de palha para o gado; o folhelho para os colchões; a moinha para as almofadas; o carolo para o lume. O milho era um dispositivo de socialização; as levadas comunitárias da água de rega; a junta de compartes para gerir o corte dos matos no baldio; as desfolhadas e o milho-rei para os namoros; a espiga para as alminhas ou o andor de S. Lourenço ou do S. Miguel padroeiro das colheitas…

Era o tempo do Portugal profundo, pré-moderno, pobre, descalço, resignado, emigrante. Por isso se cantava nas lavouras, para ludibriar a fome e ritmar o trabalho. Os da cidade achavam graça a esses camponeses, pobrinhos mas felizes e respeitadores.

Acabou-se. Na Rua da Estrada o espigueiro conserva a sua pose de quase-templo arruinado do deus Pã, testemunha dos encantamentos de outros tempos e da escassez de que se procura limpar a má memória.

Iremos então ao Café Canastro no rés-do-chão da casa kitada onde o seu dono terá morada; há onde estacionar para lá do portão aberto onde poderá ter havido um jardim, uma horta, galinhas e roupa a secar. Diz aquele losango vermelho com círculo branco no poste da luz que não se pode caçar. Ele há coisas muito estranhas e difíceis de entender…

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/cafe-canastro

12 de fevereiro de 2015

Rota das Pirâmides

Rua da Estrada
12 Fevereiro 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

O EXÓTICO é um desejo; uma máquina de sedução; um domínio geo-semântico que designa um território imenso e quente, desconfinado, longínquo e incerto onde existem coisas estereotipadas, espécie de adereços e ambiências como o cheiro das especiarias, as trovoadas tropicais, as araras, as odaliscas, as palmeiras, os batuques, os camelos, e as pirâmides, por exemplo. O exotismo alimenta-se da nostalgia, do espaço e do tempo, como memória de uma idade de ouro em paragens remotas e tempos perdidos.

Depois de Napoleão ter regressado a França após a Batalha das Pirâmides e se terem difundido as histórias prodigiosas da civilização do Nilo,[1] não parou mais o fascínio misterioso dos europeus pelo Egipto dos faraós, das esfinges, dos obeliscos, dos impérios e das Pirâmides de Gizé. Até hoje.

Desde a pirâmide do Louvre atulhado de múmias, à do hotel Pyramide de Nuremberga, à do Luxor em Las Vegas, à do Ryugyŏng em Pyongyang…, às pirâmides da Rua da Estrada, nada escapa a estes universalismos contemporâneos. Contrariamente à cidade patrimonializada que tem excesso de passado, a Rua da Estrada tem excesso de presente. No entanto, quem achar as pirâmides demasiado exóticas ou muito hieroglificamente estranhas, tem a Rota do Românico com seus templos, cristandades e granitos sem espelhos. Não tem que enganar, é seguir as setas.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rota-das-piramides

9 de fevereiro de 2015

Rua da Estrada de Atenas

Rua da Estrada
9 Fevereiro 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

ANDAVAM os antepassados da Angela Merkel nas cavernas por entre ursos e outras barbaridades, quando Péricles edificava Atenas antes das guerras do Peloponeso. Era assim o mundo, aos encontrões, como sempre.

Depois de edificar a Acrópole verificou-se que custava muito lá subir e muito ventosa. De íngreme que era e de caminhos mal empedrados, as quadrigas patinavam e viravam-se de rodas e pernas para cima. Então, depois de muitos séculos prodigiosos, conseguiu-se finalmente domesticar os cavalos de uma maneira diferente de modo a que coubessem às dezenas e às centenas nos motores dos automóveis, azuis na sua maior parte. Com pneus de borracha e piso de asfalto, acabou-se com a chinfrineira das cavalgaduras, as nuvens de poeira e o lamaçal quando chovia. E assim a cidade se foi desprendendo da Acrópole, transbordando as muralhas por centenas de estádios de ruas e estradas. De tantos templos, estátuas, bronzes, teatros, mármores e outros luxos… faliu.

Por isso estão tão parados os negócios na Rua da Estrada, οδικό δρόμο: estabelecimentos fechados, espaços de publicidade que ninguém compra, pneus japoneses, alemães e franceses à espera de quem os leve…, uma pasmaceira. Terá que vir Zeus outra vez disfarçado de boi, raptar a Europa e levá-la para Creta a ver se fica menos cretina.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-de-atenas

7 de fevereiro de 2015

Ao desafio com Álvaro Domingues

Ao desafio com Álvaro Domingues

Por Paulo Moreira Lopes
7 Fevereiro 2015

TODOS conhecem e frequentam a Rua da Estrada. Todos, de um modo ou de outro, contribuíram ou contribuem para a materialização e consolidação da Rua da Estrada. Ela sempre fez parte da nossa vida, mas nunca a encaramos para além da toponímia. Era uma rua especial. Só isso! Álvaro Domingues [1] foi mais longe. Abordou-a como processo de conhecimento da urbanidade por estar convicto que a forma habitual do entendimento da “cidade” não nos leva a lado nenhum (nem à Rua da Estrada?). Nós pedimos-lhe orientação para encontrar a Rua da Estrada. Agora é só seguir as respostas.

Foto de Rui Farinha

O livro A Rua da Estrada é uma equação de arquitetura, um guia turístico, uma coleção de cromos, um manifesto, um caderno de encargos, um livro de terror ou uma brincadeira de mau gosto?

Preferia pensar que nenhuma das opções de resposta, excepto a equação. E, já agora, o guia turístico. Fiz a Rua da Estrada como processo de conhecimento da urbanidade por estar convicto que a forma habitual do entendimento da “cidade” não nos leva a lado nenhum. Aquilo a que se chama cidade perdeu o monopólio da urbanização e parece que nem se deu pelo caso, nem se construíram ferramentas de leitura da diversidade urbana que hoje existe. Será que só há o Tico e o Teco nos desenhos animados? E se morre o Tico?

Se o assunto mete medo não deveria ser estudado por psicólogos ou psiquiatras, em vez de geógrafos, engenheiros ou arquitetos?

Temo que a questão contenha um pressuposto com o qual descordaria em toda a linha – o de pensar que quem constrói a Rua da Estrada poderá ser um potencial psicopata. Não e não. Quando fotografo há sempre alguém que me pergunta o que ando a fazer. Explico e então a conversa que se desenrola é a mais normal deste mundo (excepto para mentes científico-técnicas que pensam que a lógica do mundo se confina nas suas supostas racionalidades). Somos filhos do racionalismo iluminista, o mesmo que explica como é que a mesma racionalidade dá uma bomba atómica e uma máquina de tirar radiografias. Não devemos esquecer aquela frase que diz para não nos esquecermos de que quem inventou o comboio, sem saber, tinha inventado o descarrilamento.

Por que diz que na Rua da Estrada não passam só os bodes expiatórios do costume: especulação, défice de planeamento e ilegalidades?

Há (pelo menos) duas atitudes na forma como se vê o mundo: uma é analítica e outra reguladora/normativa. A analítica procura explicações para as coisas, independentemente de racionalidades e éticas ou estéticas pré-concebidas; a reguladora acha que, independentemente do que o mundo é, devia ser qualquer coisa que a sua ideologia específica, racionalidade ou estética dizem que é. Quem não quer construir ou aceitar explicações (mesmo que não concordem com a sua), usa mais facilmente um bode expiatório, uma espécie de explicação, e segue em frente. Ficará mais calmo, mas não resolve nada e continuará a não perceber o mundo. Se tiver muito poder até é capaz de destruir quem não pensa daquela maneira…, já aconteceu várias vezes.

Sendo a Rua da Estrada como uma corda onde tudo se pendura, não corremos o risco de um dia a corda rebentar com tanto peso?

Não. Os processos de auto-regulação são uma forma de encontrar equilíbrios e diminuir atritos e conflitos. Acontece em todos os contextos urbanos. Chama-se congestionamento e costuma originar um ciclo diferente que pára o processo acumulativo de aumento de carga urbana num determinado território.

É muito profundo o buraco negro aberto entre a Rua da Estrada e a ligação à autoestrada?

O buraco negro é tal qual o da física teórica: um ponto máximo de distorção do espaço-tempo com um efeito gravitacional poderoso. No nó de uma auto-estrada acede-se a uma operação de compressão do espaço-tempo que permite, através da velocidade, percorrer espaços rapidamente na via rápida. Isso coloca questões de compreensão das relações espaço-tempo no território. Quando tudo flui com facilidade, a distância física é menos relevante e é mais importante a acessibilidade e a facilidade de acesso, de relação. Por isso os nós das auto-estradas e as suas proximidades são tão procurados. Permitem vivenciar espaços muito vastos e trocar a densidade, a proximidade e a aglomeração pela acessibilidade.

Tem saudades do tempo em que as estradas eram apenas estradas?

Não. Há imensas estradas daquelas que levam ao “longe” e permitem outras poéticas da viagem. Infelizmente o país esvaziado e disfuncional é geograficamente maioritário. Há muito quilómetro por montanhas, vales e pedregulhos. Do que tenho saudades é dos bons projectos de estradas atentos às árvores, às qualidades paisagísticas dos traçados, a um ou outro facto excepcional que fica junto à estrada e por aí.

Com a atual Rua da Estrada já não se faz poesia como antigamente?

Não sofro de nostalgia. Consigo encantar-me e interessar-me com muitas das coisas da Rua da Estrada; é uma questão de mudança de atitude e de atenção ao quotidiano, ao banal, às coisas comuns da vida e a muitas excepcionalidades. Aconteceu-me o mesmo recentemente em Luanda. Aprendi mais na Rua da Estrada do que no musseque ou na Luanda do luxo e da ostentação.

Defende um inibidor de paisagens alheias à margem das estradas, ou seja, os condutores deveriam ser inibidos de se distraírem com outras paisagens a não ser as que veem correr pelos espelhos e pelos vidros?

Pois não é paisagem o que corre pelos vidros? Nós é que pensamos que paisagens são espaços abertos e grandes profundidades de campo visual. Não é verdade, estamos demasiado formatados pela estética oitocentista da pintura de paisagem. A visão a partir do automóvel é cinema; não é a atitude estática e contemplativa do caminhante enquanto sujeito empoleirado no bico de uma rocha a perscrutar horizontes.

A Rua da Estrada, por ter muitos locais sagrados (entalados ou não), torna-se um lugar de culto?

Deus não morreu, como muitas vezes se pensa. O sagrado faz parte dos mundos simbólicos que guiam as nossas crenças e aspirações. Dizia o Ovidio no seu tempo de romano da antiguidade que Dos deuses é-nos útil a existência / e como é útil existirem deuses / acreditemos que realmente existam. Como na Via Apia onde se construíam túmulos e templos votivos, a Estrada está cheia das pegadas dos deuses e do desconhecido como não podia deixar de ser, tratando-se de coisas dos humanos.

Uma casa feita na rotunda é um privilégio para quem? Para a rotunda, para os donos da casa ou para os condutores?

Para todos. Num espaço de fluxos e de relações, as rotundas são rótulas que nos tiram das linhas e nos obrigam a olhar em volta e a estar atento ao que por aí está ou passa; são momentos de intensificação da percepção (daí o trocadilho entre contornar e controlar). O inventor das rotundas, (Eugène Hénard, o que desenhou a Étoile em Paris) chamou-lhes giratórios e colocou-lhes monumentos no meio. No centro e na periferia da giração, as coisas são mais visíveis e estão mais presentes.

Só há casas de sonho na Trofa?

Todas as casas são de sonhos. Uns mais e outros menos realizáveis. Quando podemos ter alguma capacidade de decisão na escolha, construção ou modificação da nossa casa, passa-se aquilo que se passa com tudo que é nosso e que está muito exposto publicamente – acaba por reflector aquilo que julgamos ou queremos ser na sociedade. São coisas que são sinais de nós e dos nossos sonhos. Na prateleira de cima, só quem acha que está muito bem situado socialmente é que pratica “um charme discreto” quase invisível e que parece dizer “não preciso de me expor muito porque todos me conhecem a mim e à minha genealogia”. Na prateleira de baixo está-se tão frágil e inseguro que se acha que não vale a pena; está-se diluído na massa. O modernismo achava que se todos vivêssemos em blocos cinzentos do mesmo tamanho, a sociedade era igualitária e justa. Dá para rir, apesar de aborrecido.

Terá sido um camião cheio de coincidências, má vontade, lapsos ou aselhice que atropelou a casa da página 46?

Não. Foi a racionalidade abstracta de por asfalto em cima de asfalto e achar que a estrada é uma tira técnica indiferente ao contexto.

As casas kitadas são assim designadas por estarem adiantadas ao seu tempo (delas, casas)?

Casa kitada é casa que foi pensada para ser casa e que depois foi kitada para poder conter outras funções que o seu tempo reclama. São do seu tempo, portanto.

Além de casas com piercing, também existem casas tatuadas?

Muito. A tatuagem, como estudam os antropólogos, é uma poderosa linguagem simbólica de reconhecimento social. Há um século pensava-se na Europa auto-intitulada de civilizada, que tatuagens e outras coisas eram selvajarias. James Cook no sec XVIII tinha ficado fascinado com as tatuagens dos povos do Pacífico, especialmente do Taiti e da Nova Zelândia e trouxe esse gosto para a Europa, a começar pelo universo dos viajantes e marinheiros; antes, Vaz de Caminha, anotou esse tipo de decorações no relato do achamento do Brasil; não percebeu muito bem mas achava aquilo uma coisa boa na sua visão do “bom selvagem” muito antes de Rousseau. Depois a tatuagem transformou-se num exotismo e desde há muito que atingiu finalmente o seu estatuto de código estético para a cultura erudita. Não sei que diga. Gosto da variedade das casas tatuadas.

As casas teatro dão muito espetáculo a quem passa na Rua da Estrada?

A casa-teatro é um dispositivo de visibilidade e cenografia do real. Fazer cenas é o que mais no acontece. Na actividade comercial, sem cenário não há produto ou serviço que sobreviva amontoado. É a vida, como se diz do teatro.

Se as casas da Rua da Estrada têm tudo por que é que algumas usam próteses?

Porque nunca se tem tudo. Por definição, a prótese é um dispositivo tecnológico (físico, químico, electrónico..) que permite repor e/ou expandir funções e possibilidades. Vivemos em mundos cheios de próteses: casas, automóveis, telemóveis, vacinas, aviões, óculos, etc. Muito mal iria o mundo se tal não existisse. Abelhas, animais quase sem cérebro, constroem laboriosas casas todas iguais há milhões de anos. São seres “fechados”. Nós somos “abertos”, culturalmente fabricados e por isso incorporando constantemente variedade e mudança.

Se na Rua da Estrada não é a lógica do peão que conta, então não seria melhor aqueles circularem pelo meio da estrada para que os condutores e passageiros pudessem ver melhor as montras?

Ou colocar as montras no meio da Estrada… O que quero dizer é que não é só a lógica do peão que conta. Por isso não há propriamente montras (tal como as entendemos nas ruas convencionais); há vários dispositivos de visibilidade dos mais diversos tamanhos e feitios, até ao edifício-montra.

A Rua da Estrada é um lugar comum como outro qualquer?

Creio que sim no sentido em que não é nenhum lugar “esquisito” ou “anormal”. É uma das formas bastante vulgares de perceber a urbanidade enquanto relação, movimento, diversidade de funções, dotação infraestrutural, edificação.., “muitas e variegadas gentes” como diria Fernão Lopes. De resto, a Rua da Estrada não é um lugar (seja lá o que se entender por isso), é uma relação, vive do movimento.

Se vive no trajeto da Rua da Estrada também costuma fazer compras no mercado da estrada?

Sim, como quase todos nós. É difícil não parar para comprar no mercado informal de produtos agrícolas – quem vende a sua produção ou a produção de outros, desde as couves às cerejas –, nos inúmeros estabelecimentos onde há de tudo, desde automóveis e antiguidades, a bons restaurantes, sex shops ou lojas de electrodomésticos.

É possível arrematarem a Rua da Estrada?

É possível fazer arrematações e leilões na Rua da Estrada. São formas de vender.

Perante tantos códigos da estrada qual deles deverá ter prioridade?

Depende daquilo em que estejamos a pensar, visto que o Código da Estrada e os seus sinais e regras não é o único código. A Rua da Estrada é espaço público e por isso lugar de muitas formas de expressão da nossa vida em conjunto que não é possível sem regulação formal ou informal; por isso damos passagem a alguém que caminha com dificuldade ou que vai carregado sem que para isso seja necessário estar lá um sinal codificado. Já reparou como é ridículo haver faixas para bicicletas? E se as tivesse que haver também para os carrinhos de mão, os patins em linha e os carapaus de corrida? Haveria faixas coloridas e especiais para cada um? As lógicas de auto-gestão do mix e do multi-funções-usos são tão necessárias como por vezes as da especialização. Por isso não se pode andar de skate nas pistas dos aeroportos…, embora apetecesse (por vezes).

Se existe a rota dos móveis, do vinho verde, do Douro, das cebolas, do românico, das estrelas, da terra fria, porque não existe a rota das Ruas da Estrada?

Claro que existe! Não é pelo acto de não ter placas indicativas ou campanhas publicitárias que não existe. Aliás essas rotas são, antes de tudo da Rua da Estrada porque é por aí que lá se vai às cebolas e ao românico.

A Rua da Estrada é a estrada em diferido de um beco sem saída?

Não. Um beco sem saída é isso mesmo. O que há mais na Rua da Estrada são saídas e entradas. A Rua da Estrada faz parte de um rizoma extremamente poroso. Não existem 100 ou 200 metros seguidos sem haver cruzamentos, entroncamentos ou rotundas. Quem inventou a Rua da Estrada enquanto problema foi a classificação rígida e mutuamente exclusiva de que em matéria de asfalto só há ruas ou estradas. Foi por isso que o ornitorrinco esteve quase 90 anos sem classificação. A biologia e as suas classificações científicas achavam que o bicho era kitado e que não podia existir… O mundo está cheio de ornitorrincos! São animais fabulosos!

Podemos considerar a Rua da Estrada um monumento?

Podemos considerar que a Rua da Estrada está cheia de monumentos. Monumentos são edifícios grandes ou pequenos que valem pela visibilidade e significado que detêm nas chamadas memórias colectivas como o Mosteiro da Batalha que está na Rua da Estrada N1 ou IC2 ou essas letras e números abstractos. São pequenos monumentos as antigas alminhas e também há castelos como certos postos de transformação da EDP que foram construídos com ameias e gárgulas. Os engenheiros gostam de arquitectura medieval.

Se fosse música o que corre pela janela do automóvel que tipo de música se ouviria ao longo da Rua da Estrada?

Uma diversidade de expressões musicais marcadas por um profundo ecletismo e pela mistura entre referências eruditas e não eruditas. Não partilho das dicotomias habituais da alta e da baixa culturas, ou do bom e do mau gosto. Há gostos e referências culturais que cada um de nós mistura constantemente. Vivemos num contexto de “cultura-mundo” profundamente aberta a todas as expressões e misturas, e por isso Bach poderia compor fado. Stockhausen é um chato e o minimalismo muito repetido, um aborrecimento. O regime estético da música é, felizmente, muito variado e instável. Já lá vai o tempo em que eram as elites burguesas das academias que diziam o que era o bom gosto e a erudição e assim se distinguiam e apartavam da maioria e das suas brutezas e falta de ilustração. O raio que os parta, com o devido respeito.

Há muita natureza morta ao longo da Rua da Estrada?

Natureza morta é uma categoria de pintura e fotografia que está fora de moda. Portanto, não há.

Onde paira a alma da Rua da Estrada?

A alma só existe para os que nela crêem. Para esses está em todo o lado onde a quisermos encontrar.

A Rua da Estrada é o cemitério da rua ou da estrada?

Só o seria se para além de Rua e de Estrada não houvesse outras categorias. É como pensar o mundo a preto e branco quando ele é a cores.

Funcionando a Rua da Estrada como um sismógrafo dos movimentos da sociedade, em que escala se medem aqueles movimentos? Será na escala de Álvaro?

Não tem escala porque a sociedade também não a tem, para o melhor e para o pior. Sociedade é uma negociação permanente entre consenso e conflito. O que me diz a realidade é que a durabilidade e a, como agora se diz, resiliência da Rua da Estrada são a melhor prova do seu sucesso enquanto dispositivo sócio territorial de vida em conjunto. Pensemos nisso, portanto, e tiremos as devidas consequências.

Qual a probabilidade de um dia acabarmos todos sepultados na vala comum da Rua da Estrada?

Diz-se isso a propósito de tudo o que nos fascina e que não entendemos completamente, desde a internet às auto-estradas. Na vida de todos os dias usamos tudo, desde avenidas a auto-estradas, caminhos, ruas, estradas, quelhos, becos e tudo e tudo. Nenhum deles nos engole (os abismos, sim).

É verdade que o problema é fazê-los parar por parte de quem quer que paremos?

Tal como está no livro, sim…; foi-me dito por alguém que tinha um negócio e que respondendo ao meu comentário sobre o fluxo intenso de passantes e a sua importância para o negócio, me dizia que sim, que sim, o único problema era faze-los parar e transforma-los de potenciais clientes em clientes. Já era assim na sociedade das origens quando os humanos deambulavam com os seus animais e eram desafiados ou seduzidos a parar para fazerem as suas trocas e transacções materiais e imateriais.

Finalmente: nas páginas 55, 90, 175 e 218 é visível publicidade ao Pingo Doce. Afinal quem patrocina A Rua da Estrada?

Todos nós. O Pingo Doce e o Pingo Azedo aparecem com a maior facilidade porque todos os negócios e marcas estão bastante visíveis na Rua da Estrada. Basta procurar.

Ver mais:
http://www.correiodoporto.pt/desafios/ao-desafio-com-alvaro-domingues

4 de fevereiro de 2015

Histórias do início do mundo

Rua da Estrada
4 Fevereiro 2015

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada

EM tempos muito remotos, os humanos vagueavam em grupos mais ou menos organizados, caçando e comendo do que havia. Não tinham ainda descoberto como domesticar animais e cultivar plantas; não produziam excedentes e não havia cidades. Um dia, do alto de uma colina um chefe de um desses grupos viu ao longe uma nuvem de pó que avançava e pensou: se matarmos aqueles, toda a caça e mantimentos que eles possuem será um excedente para nós. Assim fizeram e continuaram na colina exercitando armas. Quando avistaram outro grupo, pensaram melhor: matamos a maior parte e escravizamos os mais fortes para ficarem a trabalhar para nós a ver se domesticam aquelas cabras bravas. Tal qual. Pelo sim, pelo não, e porque aquela colina era estratégica e os outros invejavam suas riquezas e posição, fortificaram o lugar e ergueram uma torre no meio. Tinha nascido a primeira cidade.

Os tempos mudaram muito entretanto. Já ninguém quer ficar na mesma colina para todo o sempre, andar a mando dos mesmos e a vida é outra. Fizeram-se estradas e tudo circula de um lado para o outro. Mas, porque se estima muito o passado, conservam-se as velhas torres como relíquias daquela energia primeira que persiste nas novas cidades de agora.

Ver mais:
- http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/historias-do-inicio-do-mundo
- http://www.correiodoporto.pt/7-perguntas/sete-perguntas-a-alvaro-domingues

27 de janeiro de 2015

A outra vida da Rua da Estrada...

Por Álvaro Domingues
Autor de A Rua da Estrada
27 Jan 2015

A Rua da Estrada: apresentação

Da longa história da cidade ficaram algumas coisas sobre as quais estamos todos de acordo: uma organização social; suportes infraestruturais necessários à troca e à relação; edificação; diversidade e mudança. A aglomeração e a proximidade acompanhavam tudo isso enquanto a congestão não desse cabo de tão preciosa intensidade.

Assim é a Rua da Estrada: uma espécie de dispositivo sócio-técnico que possibilita a mobilidade das pessoas, da informação, das mercadorias, da energia…, e que funciona como uma prótese que torna possível a organização da sociedade/território.
Falta só imaginar que a cidade se desconfinou, que galgou muralhas e limites, que colonizou o infinito rizoma do asfalto e de outras redes com ou sem fios, canos, condutas, cabos e outras teias. Por estes infinitos caminhos circulam os humanos e as suas urgências: vão à bola, à fábrica, à farmácia, ao comboio, a remar, à escola, a Aveiro ou a Sarrazola…

Escreveu a Agustina Bessa-Luís no seu Diccionário Imperfeito (Guimarães Editora, 2008) : “A estrada é, acima de tudo, civilidade, tem que ser construída para o uso das pessoas e para efeitos de uma economia. A estrada romana é ainda hoje modelo de mecanismo social. Levava não só os poetas até Brindisi, como as mercadorias aos portos e, mais ainda, a imaginação até aos confins da memória”. É tal qual.

Ler mais:
http://www.correiodoporto.pt/rua-da-estrada/rua-da-estrada-apresentacao

12 de outubro de 2013

A Rua da Estrada está na X Bienal de Arquitetura de S. Paulo























Álvaro Domingues é geógrafo e professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, em Portugal.
Um de seus trabalhos mais conhecidos é o livro "A Rua da Estrada" (Dafne Editora), que apresenta uma visão desconcertante das "paisagens transgênicas" geradas pela "dupla perda da 'cidade' e do 'campo'".
Uma versão deste trabalho, concebida especialmente para a Bienal, estará no CCSP.
Na troca de emails preparatórios para a exposição, Álvaro nos surpreende com esta foto, da Casa do Penedo, perto de Braga. "Quem foi que disse que a realidade é apenas a parte da ficção que se consegue provar que existe?", pergunta ele.

Não abras a porta,
se for o sublime diz que não estou,
já temos palavras de mais, sentimentos de mais.

A glicínia não floriu este ano,
Antes floria à volta de
tudo o que resta de azul à nossa volta,
envelheceu, anima-a só o desejo de voltar a casa, de ser uma casa

PINA, Manuel. "Como se desenha uma casa". Porto: Assírio & Alvim, 2011.

foto:
Álvaro Domingues



Ver também:
https://www.facebook.com/photo.phpfbid=205357019635469&set=a.152186104952561.1073741828.139785682859270&type=1&theater
https://www.facebook.com/xbienaldearquitetura

EXPOSIÇÃO - A Rua da Estrada


Quando:
12/10 A 01/12

Onde:
Centro Cultural São Paulo


A Rua da Estrada é um princípio simples de urbanização, um dispositivo de vida em comum.


A Rua da Estrada não é a rua com seu desenho rigoroso; é um somatório de ocorrências e acasos a perder de vista, alinhados pelo limite do asfalto e pela marcação incerta do espaço privado que se torna público.

A Rua da Estrada não é um lugar; é um fluxo que multiplica relações, um hiperlugar, um tramo do rizoma infinito que organiza a urbanização extensiva.

A Rua da Estrada é como uma corda em que tudo se pendura; um centro em linha; uma congestão; um desassossego. Nem rua, nem estrada; o melhor de uma e de outra ou, segundo alguns, o pior. Em todo caso, lugar de vida e de conflito, terra de ninguém porque de muitos, objeto de tutelas várias e regras múltiplas: o Estado Central e o municipal, o público e o privado, as regras e as convenções; a infração.

A Rua da Estrada não se projeta; é do bricoleur.

A Rua da Estrada é um mundo compósito, um transgênico continuamente processando e combinando elementos de diversas proveniências e condições: “todo o mundo é feito de mudança/tomando sempre novas qualidades”, dizia Camões, que não era pós-moderno nem sabia de cibernética.

Instalação audiovisual do geógrafo português Álvaro Domingue que registra a dissolução de fronteiras entre cidade e campo, com foco em Portugal. A mostra, concebida especialmente para a Bienal, baseia-se no livro “A Rua da Estrada”, do mesmo autor (Dafne editora). O conceito de cidade genérica se estende aqui ao território como um todo, não apenas ao urbano, formando aquilo que o autor chama de “paisagem transgênica”.

Leia mais:

Lugar Comum
É na Rua da Estrada que melhor se percebem as dúvidas e as ansiedades que hoje podemos encontrar acerca do “espaço público” como conceito central da ideia de cidade. Formalmente, não estamos perante as tipologias habituais de espaço público em arquitetura e urbanismo. Não há praças, ruas, avenidas, alamedas, largos, jardins nem parques, exceto quando são estacionamentos. Contrariamente à cidade, a rede de estradas não é uma configuração centrada com elementos de referenciação estáveis. A estrada é um percurso, uma sequência de formas, funções e signos; um centro em linha. Na Rua da Estrada existe um léxico mínimo de acostamentos, valetas, passeios, rotundas e estrada, muita estrada. Todo o resto são invenções forçadas com nomes variados.

Dispositivos/Próteses
Durante séculos, os assentamentos urbanos eram dependentes de tecnologias muito simples para o transporte e o acondicionamento de pessoas, mercadorias, informação ou energia. A distância era um custo, uma dificuldade, um risco. Por isso, a cidade era aglomerada e densa. Fora de seus muros, faltava tudo e os caminhos eram ruins e perigosos. A cidade tinha quase o monopólio da infraestrutura. Hoje, a geografia das próteses tecnológicas que suportam a urbanização é das mais distintas. A “cidade” perdeu o controle da infraestrutura (água, saneamento, energia, telecomunicações, transporte) que hoje irriga territórios imensos onde virtualmente se pode construir uma casa, fábrica ou centro comercial. Por sua vez, vizinhança, relação, interação etc. são qualidades que já não dependem exclusivamente da proximidade física, mas da proximidade “relacional”.

Transgênicos
Na biologia, a manipulação genética produz enormes sobressaltos éticos, estéticos e morais. O mesmo acontece na permanente mutação urbana, de onde resultam as paisagens transgênicas: perturbou-se a “ordem natural das coisas”, a estabilidade que pensávamos ser para sempre. Será possível pensar um macaco ou um coelho fosforescente por conter um traço do código genético de uma medusa? Se o mesmo arsenal genético da fosforescência de um pirilampo for parar num pinheiro, estaremos perante um pirileiro, um pinheirampo ou simplesmente um grande negócio para a indústria das decorações natalinas? É que um transgênico não é um híbrido. A mula vive e confina-se no universo compósito de sua gênese: um cavalo e uma burra. Para uns, terá o pior do cavalo e o melhor do burro; para outros, nem isso, ao contrário. Mas, apesar de tudo, ainda é possível ver na mula todos os traços de sua origem. Como todos os híbridos, é estéril. Coitada da mula e de sua indefinição identitária!

É assim a Rua da Estrada.

Participante:
Álvaro Domingues (instalação audiovisual), Porto, Portugal

In:
http://www.xbienaldearquitetura.org.br/a-rua-da-estrada/#.UoQJ1bIgGK3

10 de novembro de 2012

Caminhos do Cinema Português

Quando:
Sábado 10 de Novembro - 17:30

Onde:
Coimbra- Teatro Académico de Gil Vicente

A RUA DA ESTRADA

Realizador
Graça Castanheira

Sinopse
Em “Rua da Estrada” percorrem-se as estradas nacionais, com a sua muito peculiar paisagem- sismógrafo do tempo que passa. Lida pelo olhar avisado do geógrafo Álvaro Domingues, uma viagem por Portugal, tal qual é.


A VOSSA CASA

Realizador
Joao Mario Grilo

Sinopse
Abordagem documental da obra do arquitecto Raul Lino (1879-1974), pondo especial incidência na relação entre edifício e natureza e no modo como essa relação foi moldando uma paisagem humana e ideológica alicerçada no conceito de “casa portuguesa” como parte de um específico e perene “projecto de felicidade”. O filme procura demonstrar o grande interesse que Lino sempre demonstrou pela cal e do tratamento que lhe deu como matéria-prima ecrânica, reflectora da luz, do tempo e da natureza envolvente. Apesar, assim, de recorrer a materiais de arquivo, a entrevistas com especialistas no estudo da obra de Raul Lino e ao próprio pensamento do arquitecto (expresso em livros e em inúmeros artigos de opinião), CAL visa, de facto, uma ultrapassagem desta interessante, mas essencialmente informativa, dimensão do pensamento arquitectónico, para se oferecer ao espectador como um equivalente formal e fílmico da própria arquitectura; para a dar a ver como um “sítio” dramático, móvel e temporal e, por essas razões, também ele ecrânico e cinematográfico.

27 de julho de 2012

"Vida no Campo" - Álvaro Domingues faz o funeral da ruralidade

Abel Coentrão
11.01.2012
Álvaro Domingues já nos tinha dado, há dois anos, "A Rua da Estrada", viagem pelo urbanismo das bermas, pela cidade que, para lá da redutora dicotomia centro/periféria, se espraia por vias nacionais afora, exibindo a quem passa uma estranha e muito própria maneira de ocupar o território.

Esse foi o primeiro livro de uma trilogia do geógrafo Álvaro Domingues, que há-de acabar, em 2013, com uma outra viagem a que já deu o nome de "Volta a Portugal". Antes desse terceiro volume inspirado na famosa prova de ciclismo, o docente da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto deixou-se perder pela "Vida no Campo". Trata-se de um daqueles títulos enganadores, a puxar pelo bucolismo, coisa que, em Álvaro Domingues, esbarra na esquina de um qualquer parágrafo de prosa, sem direito a piquenique ou fedor a bosta. O mundo rural é uma saudade, e "a questão é que o luto, enquanto processo de esquecimento, é constantemente perturbado pela presença do morto", ler-se-á a dado momento. Mas nada de chorá-lo, que Domingues faz este funeral à moda antiga, com foto do cadáver em urna e tudo. Coisa normal num observador que anda sempre de máquina em "stand-by", apanhando o país de calças na mão, nas poses mais inesperadas, e legando, em cada obra que escreve, imagens que, por vezes, quase dispensariam palavras. Algumas são de fazer chorar, outras impelem-nos a rir, para disfarçar as lágrimas que lavariam este nosso "mau viver pelo abandono e despovoamento" de uma boa parte de Portugal.
in:
http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=299040