18 de julho de 2012

Cidades do Futuro

Carlos Leite
Artigo publicado na Revista AU, agosto, 2010

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As cidades inteligentes estão chegando

Pensemos nos carros. Fundamentalmente, eles não mudaram muito desde o pioneiro modelo T de Ford há 100 anos. São peças de design projetadas para transportar várias pessoas, atingir altas velocidades e cobrir grandes distâncias. Um típico SUV, por exemplo, chega a ter massa 44 vezes maior do que a do seu motorista. Imaginem a pegada ecológica necessária para a sua construção, além do uso e consumo e de um superado design de ciclo de vida único.
Agora pensemos nas necessidades usuais de um verdadeiro carro urbano. Nas grandes cidades do século 21, a absoluta maioria das viagens é realizada por uma pessoa ou duas. A velocidade média é de menos de 20 km/h. As distâncias são curtas, a necessidade de autonomia de percursos, pequena. O grande problema não se refere ao desempenho automobilístico e sim à falta de lugar para deixá-lo uma vez que 75% do tempo ele está...parado.
Ou seja, as cidades do século 21 precisam de carros smart: pequenos, leves, de baixíssimo consumo, movidos a matriz energética limpa e de ciclo de vida contínuo (cradle-to-cradle design). Mais que isso: a tendência para o transporte individual nas grandes cidades do futuro (imediato) são carros compartilhados, mobility-on-demand como os que já vêm sendo desenvolvidos pelo Smart Cities Lab do MIT – no Brasil, Jaime Lerner desenvolve um modelo que busca os mesmos parâmetros.
O sistema resolve uma imensa demanda atual: espaço. Teremos, em situações ideais, as ruas liberadas apenas para fluxo, sem espaços urbanos desperdiçados com estacionamento. Com isso, ganham todos, pois as cidades poderão resgatar seus espaços mais essenciais e nobres, os de uso coletivo públicos e privados – onde a vida urbana ocorre com maior vitalidade.
Começou em Lyon, logo chegou a Paris, Barcelona e Nova York. Na verdade, é tendência para as grandes cidades do século 21: compartilhamento de bicicletas. Deixa-se de ser proprietário de bicicletas para ser usuário.
Ken Levingstone, ex-prefeito de Londres, quase conseguiu implementar o uso exclusivo do carro compartilhado na City londrina, o lugar mais congestionado do planeta atualmente. Só circulariam no centro de Londres carros compartilhados.
São tendências irreversíveis e, naturalmente, o sistema capitalista se reinventa oportunamente. As cidades do futuro serão inteligentes em diversos aspectos. Uma gestão inteligente do território será capaz de propiciar maior agilidade na gestão integrada on line das diversas mobilidades urbanas. Essencialmente, transporte público multimodal ágil e competente, como já há em diversas cidades desenvolvidas, mas também sistemas inteligentes de uso compartilhado de transporte individual, de bicicletas motorizadas aos smart city cars.
Na verdade, as cidades inteligentes atuarão como um sistema de redes inteligentes conectadas. É natural que as contínuas inovações em tecnologia da informação e comunicação propiciem inúmeras revoluções urbanas. Empresas como a IBM (Smarter Cities), Cisco (Connected Urban Development), Siemens e outras já estão desenvolvendo programas e os ofertando às cidades.
Não há mistério. O século 21 mostra, cada vez mais, a substituição da economia fordista industrial pela nova economia: de serviços. É óbvio que as cidades do futuro se pautarão assim também, serão pólos numa imensa rede global de conexões inteligentes.
As pessoas serão usuárias dos diversos sistemas e terão, cada vez mais, acesso on line a todos os serviços urbanos, do consumo de água à escolha do posto de saúde. Do compartilhamento de smart cars à execução de trabalho em lugares flexíveis, espaços sem dono fixo, compartilháveis.
Resta saber como tudo isso será acessível, democrático, inclusivo.
Novamente, olhemos a história das cidades e lembremos que elas sempre foram o espaço das contradições e conflitos de suas sociedades. Seria inocente pensar que as inovações tecnológicas do século 21 propiciarão maior inclusão social e cidades mais democráticas por si só.

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